segunda-feira, 25 de maio de 2020

Humildade e Transição Planetária


A Cabala Judaica (Qabbalah) nos traz uma situação muito interessante acerca do tema humildade.

Não estamos falando aqui da Cabala Esotérica, muito comentada e utilizada pelos artistas e adivinhos do mundo, mas sim de um tratado místico "pouco disseminado" na tradição judaica primitiva. [1]

Os mestres cabalistas, ao se referir à humildade, não se ajoelhavam, mas se deitavam.

Por quê? Para que este movimento trouxesse a ideia da humildade!

Explico: O termo Adão vem de adamah, ou seja, terra em hebraico. Humano vem do grego humus, sendo que humildade também deriva desta palavra. Desta forma, ajoelhar-se não era suficiente pois oa criatura (humus) ainda não estava no máximo da representação da sua humildade (também humus), então era preciso deitar-se no chão para simbolizar que aquela terra (humus/adamah) estava propícia para ser fertilizada. [2]

Ou seja, quando nós nos colocamos como um "cisco", assim como dizia Francisco Cândido Xavier, seres abertos às novas propostas de vida que Deus nos traz, estaremos aptos a nos reconstruir de forma segura.

Isso nos remete ao ensinamento de Jesus: "Deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, pois delas é o Reino dos Céus"[3], nos ensinando que esse é o verdadeiro símbolo, o de "estado infantil" de humildade, de abertura, de sede do saber, de conhecer, de viver... sem os paradigmas, idiossincrasias e ideias formadas já fixadas em adultos.

O orgulho, que é exatamente o contrário de humildade, é uma das chagas da Humanidade como nos traz a Doutrina Espírita, uma vez que nos fecha em nossa própria visão de mundo, nos tornando resistentes e teimosos àquilo que não podemos controlar.

Sim, ainda gostamos de controlar tudo! Às vezes, até mesmo os outros...

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Relembrando a situação do povo hebreu no Egito, quando escravo do faraó, Deus enviou as 10 pragas que atingiram a todos, tanto egípcios quanto hebreus. Foi somente após a última praga que o faraó determinou a soltura do povo hebreu, que posteriormente caminhou no deserto por 40 anos.

Ficamos nos perguntando: Por que motivo Deus teria enviado todas estas pragas?

A resposta é que Deus envia a dor para que nosso orgulho seja desmontado. Ou seja, as pragas, muito mais do que para a população, tinham a finalidade de amolecer o coração do faraó, o governante. O seu orgulho não admitia "perder" aqueles escravos que sustentavam a luxúria, os vícios e os prazeres desse povo.

Façamos agora uma analogia com aquilo que somos formados: Espírito (do grego pneuma), perispírito e corpo físico.

Segundo André Luiz, no livro Evolução em Dois Mundos[4], nosso corpo possui milhares de milhares de princípios inteligentes em ação, que por sua vez atendem ao comando do Espírito encarnado a que se liga. Desta forma, caracterizamos aqui o Espírito encarnado como o "faraó" e esta quantidade imensa de princípios inteligentes do corpo como a "população".

Toda vez que nosso Espírito adoece, adoece também o nosso perispírito, em seguida o corpo físico e por conseguinte todas as células que o compõem. E isso acontece por nossa própria decisão, fruto do livre arbítrio que temos ao realizar nossas escolhas. Vejamos que, em última instância, somos responsáveis por milhares de vidas em formação e que nossas ações positivas ou negativas também lhes refletem a consequência.

Para estes princípios inteligentes, o determinismo atua a todo momento e tudo é uma nova experiência, tal qual àquela atitude das crianças citada por Jesus no versículo citado. Eles estão em patamar inferior de evolução que corresponde ao programa divino traçado anteriormente. Para o povo egípcio e hebreu, à sua época, trata-se de provas e expiações como consequência de seus atos em tempos anteriores. Nada escapa da Lei Divina, embora sua misericórdia infinita.

E o faraó? O faraó é o governante responsável. Se suas atitudes refletirem o bem e o amor em posição de humildade, aceitando os desígnios de Deus, ele e o seu povo se elevarão. Caso contrário, o seu orgulho continuará recebendo as "pragas", ou seja, as dores da vida, as provas e expiações até que esteja no mais fundo chão (humus), afim de que, após ter recebido tantas dores na vida, seu coração amoleça e cogite aceitar que não está no comando de nada. A cada um segundo suas obras.

Deus faz isso mesmo! Quanto mais acomodados estamos, mais cristalizados estamos em uma maneira de ver a vida, de pensar, de agir e após ter nos mostrados várias vezes o melhor caminho pelo amor, através de avisos por outras pessoas e situações, chegam as dificuldades para nos sacudir. E se nos mostrarmos ainda resistentes, chegam outras provações maiores e mais profundas até que a dureza do nosso coração crie fissuras, abrindo espaço para a humildade entrar, surgir.

É que Deus conversa conosco também pela dor... pelo sentir. Por este motivo é que para entender verdadeiramente a Deus, é preciso que Ele seja sentido e não somente raciocinado. Talvez esta seja também a chave para entender o Evangelho de Jesus: na troca de quem cura e é curado, de quem dá e de quem recebe, de quem tem o toque e de quem é tocado, de quem ama e de quem é amado...

Verificamos que a Escritura Bíblica tem pelo menos duas abordagens de onde podemos extrair lições: de forma individual e coletiva, sendo os reflexos os mesmos tanto em atitudes isoladas ou em conjunto.

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Os dias atuais são os de transição planetária.

No momento em que se aproxima a separação do joio e do trigo pelo Cristo, visando a entrada no Mundo de Regeneração, não serão diferentes estes dias daquelas "pragas" enviadas ao povo do Egito. Teremos ainda atribulações que deverão mexer não só com a estrutura geológica da Terra, mas também com as nossas estruturas interiores (moral, psicológica, relacional, emocional).

Por exemplo: a próxima fase da Terra não comportará expiações, ou seja, os espíritos que necessitam evoluir através desta necessidade, não reencarnarão mais aqui na Terra, pelo menos por enquanto. A alimentação deverá ser mais frugal, não se utilizando mais dos nossos irmãos animais. Não poderá existir nações materialistas que visam o poder tirando a liberdade do seu próprio povo.

Percebemos que somente pelos pontos citados, haverá uma revolução muito grande na sociedade em que vivemos e que com certeza também mexerá com os nossos destinos. Os eventos futuros atingirão povos e "faraós" de forma igual, porém a responsabilidade é proporcional.

Mas acima de tudo, como cita Allan Kardec no capítulo 18 de A Gênese[5], a nova geração se apresentará com extrema pujança a nos auxiliar neste processo, assim como na época do Egito lá estava Moisés auxiliando o povo na sua transição, na sua redenção. Lembrando ainda que a Doutrina Espírita nos revela que teremos, num futuro próximo, a figura do Messias do Espiritismo que virá restabelecer todas as coisas. [6]

Não obstante o auxílio do Alto, oremos pelos nossos atuais "faraós" e oremos pelas nações, pois dias difíceis estão mesmo para chegar. Mas, se estivermos com o coração aberto, em regime de aceitação, de humildade, como crianças, resignados em prece e nos propondo a atuar como aqueles verdadeiros cristãos da época de Jesus, passaremos pelas dificuldades com mais tranquilidade e com o coração repleto de alegria, por saber que estamos sendo úteis e instrumentos do Senhor.

"E não mais ensinará cada um a seu próximo, nem cada um a seu irmão, dizendo: - Conhece o Senhor! Porque todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior".[7]

Muita paz! 

[1] Palestra: Cabala Mística - Irmã Aíla Pinheiro - https://www.youtube.com/watch?v=udTFqRndI-Y&list=PLSOqGBL6mt5SM-2CKGTNCpRbwXkkKRRso

[2] Bíblia Sagrada – Velho Testamento – Livro de Gênesis – Capítulo 02, versículo 07

[3] Bíblia Sagrada – Novo Testamento – Evangelho de Mateus – Capítulo 19, versículo 14

[4] Evolução em Dois Mundos - André Luiz / Francisco Cândido Xavier - Capítulo 05: Células e Corpo Espiritual - Item: Princípios Inteligentes Rudimentares 

[5] A Gênese - Allan Kardec - Capítulo 18: São Chegados os Tempos - Item: A Geração Nova

[6] Revista Espírita - Allan Kardec - Edição de Fevereiro/1868 - Os Messias do Espiritismo

[7] Bíblia Sagrada – Novo Testamento – Carta de Paulo aos Hebreus – Capítulo 08, versículo 11